CASIMIRO DE BRITO [Loulé, Portugal, 1938]

Créditos da imagem: https:⁄⁄revistacaliban.net

No Livro das Quedas. Ars Moriendi (Roma Editora, 2005), para Casimiro de Brito a morte é um acontecimento trágico e angustiante, porque vê nela a tremenda foice que corta inexoravelmente e cruelmente o fio da existência, afundando as pessoas no abismo do nada. Apesar da certeza que o autor coloca sobre o fato de que com a morte o ser do homem não está extinto, no entanto, isso marca o fim de uma prova irrepetível. Como situação decisiva da vida, a morte representa, em comparação com a vida, uma passagem para um outro lugar para o qual se pode ir como a própria fundação, como para aquilo em que se encontrará a realização, mesmo que incompreensível… (“a vida do mundo é um bem ilusório”, Alcorão, 3, 185) porque é e permanece excluído das possibilidades cognitivas do intelecto.

2


Um homem vai no seu corpo e subitamente
cai. Ouço desmoronar-se
a sílica do coração___Os ramos da noite
impedem-me saltar, não há fronteira
entre mim e o mundo. E pouco ou nada me sobra
desa morte: o corpo desarnado
e um falso conhecimento dos caminhos
em volta. Levantado no meio da Coisa
vou no rio em que me banho___surpreendido
com o rumor dos meus passos
esqueço o que passou – bem queria!
Passos antigos são sílabas
que me queimam a boca, excrementos.
As coisas não têm segredos, são fugazes
quando rugosas, motanhosas se parecem lisas.
Conhecem o rumor de quem partiu,
a repiração que vem de longe
e me toca neste instante fundador
não sei de quê. Vou esquecê-lo também.
Pouco, muito pouco me sobra
da minha morte.


Heraclito








10


Não esqueço
nada: abraçado
à chama dos meus dias
também eu ardo
sabendo que sou
já cinza.

13


Eu sei que vou morrer
Por todo o meu caminho vou morrer
Estranha fanasia do meu ser
Olhar-me ao espelho a fenecer.

Eu sei que sou passagem
Em toda a minha vida sou passagem
O ar a cobrar-me a portagem
Expulsa-me do reino da aragem.

Eu sei que vou cair
No seio da mãe terra vou cair
Aconchegado enfim ao meu menir
Que vai cair-me em cima e florir.

Eu sei que não demoro
Em frafas emprestadas não demoro
Que nada nesta vida é duradouro
E sorvo o sumo dela, de que morro.










29


Se não tivessemos inventado a dor e
a morte, outro galo cantaria. Também a alma, 
outra invenção alucinada, dói.
A morte é uma construção
fantástica e não é ela que não existe
mas o corpo que muda pois não há corpo
(nem estilo) desligado da teia comum,
da música mais vasta de ser. Como se fôssemos
donos de uma carne que não nos
pertence, uma pele, um osso à deriva
num rio que nos esqueceu. Não é assim. Esta paixão 
não tem nada de original, é a floração
de febres antigas, uma vertigem que não cessa
de fulminar. Por isso ardo e canto e não creio
em nada. Que fazer então? Pouso o olhar
nos teus dedos envolvendo a chávena
e fico a ouvir o que resta
do coração.

32


Se não existe o que vejo,
se a música nocturna é uma mentira
composta pela exaltação dos meus sentidos,
bom será
que eu veja de novo,
obsessivamente,
a gota de suor, a mancha no espelho, o sorriso
dos livros fechados
ou deixe de ver, ouvir, amar
de uma vez por todas. Se Deus está cego
e nada sabe da usura
é natural que eu escreva meljor
às escuras.







38


Escrevo pássaros e nada sei
do corpo deles nem das suas
inclinações – nada sei do amor
tão pleno de falsificações. Se canto,
se escrevo assim às escuras na noite
do meu lençol
é porque não sei incorporar
os ruidos, os buracos da casa
nem olhar para o lado
e ver por dentro
o rosto amado, o sono
da filha – o sabor
da passagem do tempo.

3 Replies to “CASIMIRO DE BRITO [Loulé, Portugal, 1938]”

    1. Estimado amigo António : Por acaso deparei-me com o poema de João Damasceno publicado por si no seu blog e devo confessar que fui atingido por um raio. Procurei na Internet por mais poemas e esse sentimento de admiração foi ainda mais fortalecido. Seus versos lembram os do espanhol Leopoldo Maria Panero, ou os do alemão Klaus Kinski. Eu queria saber de você como posso encontrar um livro dele, já que notei que nas livrarias online não existe.
      Uma saudação muito cordial.

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