MARIA AZENHA [ Coimbra, 1945 ]

Créditos da imagem: wikimedia.org

No blog de ahcravo gorim ( https://ahcravo.com ) ouvi pela primeira vez uma poesia da coimbrã Maria Azenha e, confesso, deixou-me muito intrigado. Encontrar um livro dela, apesar de uma produção intensa, é uma tarefa um pouco difícil. Mas, no final, com muita sorte, foi surpreendentemente possível.

Nesta pagina digital vou apresentar algumas poesias da autora tomadas do livro A casa de ler no escuro, edição espanhola bilingue da editora Trea, na tradução de José Angel Cilleruelo, Gijón, 2019.

Maria Azenha decide empreender com esta obra uma interpretação muito original da nossa realidade existencial em seus aspectos caóticos e violentos, em que a injustiça e a dor parecem ser a única certeza possível. Para descrevê-la, ela possui uma escrita enigmática que em alguns momentos pode se tornar mistérica e espiritual.

História simbólica sobre o teatro do mundo e prática duma palavra entendida como purificação na busca de plenitude. É assim que se poderiam entender os versos desta autora. Mas é, acima de tudo, como já dissemos, linguagem dolorida, capaz de nos lembrar que esse mundo em que vivemos é dotado de dificuldades e inconsistências que o tornam desprovido de espontaneidade.

                                                 A casa de ler no escuro


                                                 O poema é um quarto escuro
                                                 onde sozinho entras.

                                                 Mais negro é ainda o aposento
                                                 onde habita o teu cadáver.



                                  Maria Azenha, A casa de ler no escuro, Ediciones Trea, 2019.

O Anjo do desastre


Chegou a morte com a boca cheia de cravos.
Chegou numa certa manhã escura
com sirenes no deserto e
cavalos

contra a primavera
contra a chuva

sem que o sangue de deus existisse num milagre
ou num micron de segundo.

Vi o anjo do desastre colocar os pés no mundo.


Maria Azenha, A casa de ler no escuro, Ediciones Trea, 2019.

A loucura


! A loucura parece-se com Deus.
Não temas.
Verás que é boa e não arruína a garganta
como a voz humana!


Maria Azenha, A casa de ler no escuro, Ediciones Trea, 2019.


Gréditos da imagem: Foto de TanteTati de Pixabay

Ausência


Não há flores.
Neva.

Apenas neva.

Neva.
Neva.


Maria Azenha, A casa de ler no escuro, Ediciones Trea, 2019.

Poema contínuo


É do número que tomba o sonho
e o lume abre as entranhas da página.

Nela circula o fogo en feixes de luz
o Anjo do medo e uma pomba em cruz.
Ela é Rimbaud vestida de Jesus.

E num cardume estamos todos.

eu e tu
eu e todos
eu e tudo

eu e Pasolini

e o poema contínuo.



Maria Azenha, A casa de ler no escuro, Ediciones Trea, 2019.

Século vinte e um

               Ouvem-se passos de ferro
               correndo pela terra inteira.)



Há umja parede branca com um poema esmagado
dentro do peito.
Én filho da neve e do Castelo do Medo
-um homem abandonado à sua sede-
cujo cadáver clama por ele.

Vive e chora no Labirinto de Dédalo.

Urina sem piedade
nas mãos de Deus.



Maria Azenha, A casa de ler no escuro, Ediciones Trea, 2019.


Créditos da imagem: Foto de Free-Photos de Pixabay

Inscrição salva de um naufrágio


Invoco o silêncio azul
a gruta mais sagrada
debaixo da água do mundo

meu coração
de silêncio

meu coração azul



Maria Azenha, A casa de ler no escuro, Ediciones Trea, 2019.

Migração


Limparam nossos lábios com a poeira do deserto.
Cada um que sai leva as últimas palavras.



Maria Azenha, A casa de ler no escuro, Ediciones Trea, 2019.

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