MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA [Lisboa 1959]

Dentro do panorama atual, esta escritora pode ser considerada a herdeira de um romantismo que nunca deixou de influenciar as letras portuguesas. O espaço interior da casa encerra em seus versos o pouco que resta de um amor junto aos objetos, roupas e aromas que o recordam. Este espaço representa a introspecção da voz feminina perante a fragilidade dos momentos vividos. O amor e a morte são também elementos indivisíveis em sua poesia, porque formam um todo na solitária circularidade da nostalgia, onde só se pode escrever da angústia da perda.

Sentaram-se na areia e descalçaram os sapatos.
Puseram-se a contar pelos dedos os barcos
que faltariam para chegar o verão.

Nenhum deles falava. Tinham passado juntos
algumas noites, num quarto sem vista. E, embora
julgassem o contrário, não conheciam um do outro
muito mais do que isso.

Estavam ali sentados para ver se acontecia alguma coisa.

No verãoá
alguém viria forçosamente buscá-los.










Fado


Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite.
Estou assustada à espera que regresses: as ondas já
engoliraam a praia mais pequena e entornaram algas
nos vaso da varanda. E, na cidade, conta-se que
as praças açoitaram à tarde dezenas de gaivotas
que perseguiram os pombos e os morderam.

A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno
à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes
para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda
que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo
de ervas com canela; e há compota de ameixas
e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu

estou assustada. A lua está apenas por metade,
a terra treme. E u tremo, com medo que não voltes.




do livro: "A casa e o cheiro dos livros", Poesia reunida, Quetzal, Lisboa, 2012.

Lê, são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:

livros, risos que não consigo arrumar,
a raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por taantos dias,

uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, po

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa mnhã, e eu,

eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros.



do livro: "Nehum nome depois", Poesia reunida, Quetzal, Lisboa, 2012.

Quando chegaste, eu já tinha a morte
dentro do meu sono; e só por isso não
sentia a pedra do coração nem o corpo
quase quase tão frio. Tu não notaste

que os corvos negros carpiam já sobre
o meu telhado – e ninguém te disse que
eu estava a morrer, porque só eu sabia
que desistir é coisa de um momento.

Juram, porém, que ouviste o sangue
cansar-se nas minhas veias e as larvas
estrebucharem rente à terra; e que então
afirmaste, sem dominar um grito, que o
quarto te cheirava absurdamente a flores.

Não me contaram se chamaste por mim,
se pela morte. Mas fui eu que acordei.



do livro: “A ideia do fim”, Poesia reunida, Quetzal, Lisboa, 2012.

Quando chegaste, eu já tinha a morte
dentro do meu sono; e só por isso não
sentia a pedra do coração nem o corpo
quase quase tão frio. Tu não notaste

que os corvos negros carpiam já sobre
o meu telhado – e ninguém te disse que
eu estava a morrer, porque só eu sabia
que desistir é coisa de um momento.

Juram, porém, que ouviste o sangue
cansar-se nas minhas veias e as larvas
estrebucharem rente à terra; e que então
afirmaste, sem dominar um grito, que o
quarto te cheirava absurdamente a flores.

Não me contaram se chamaste por mim,
se pela morte. Mas fui eu que acordei.








Ainda bem
que não morri de todas as vezes que
quis morrer – que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, là longe. Ainda bem

que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno. Ainda bem

que tive medo: das facas, das alturas, mas
sobretudo de não morrer completamente
e ficar para aí – ainda mais perdida do que
antes – a olhar sem ver. ainda bem

que o tecto foi sempre demasiado alto e
eu ridiculamente pequena para a morte.

Se tivesse morrido de uma dessas vezes,
não ouviria agora a tua voz a chamar-me,
enquanto escrevo este poema, que pode
não parecer – más é – um poema de amor.



do livro: “A ideia do fim”, Poesia reunida, Quetzal, Lisboa, 2012.

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