MARIA GRACIETE BESSE

[ Monte de Caparica, Almada, Portugal, 1951 ]

Créditos da imagem: http://www.bertrand.pt

No volume de Maria Graciete Besse, Na inclinação da luz, percebemos a presença da finitude e, portanto, a imperfeição da qual se vêem circunscritas as pessoas, as coisas e as memórias. Então, estamos diante de um ego que não é capaz de manifestar sua plenitude e, portanto, acaba sendo imperfeito. Adversidade, culpa, sofrimento e morte denotam a radical finitude da existência humana, que é um incessante esforço em direção ao ser, sem nunca ser capaz de alcançá-la; mas é também uma incessante sujeição à tensão da transcendência. Desta forma é definida uma escolha do tipo expressionista que permite à autora uma ampla capacidade de ação, onde a verdade biográfica tem poucas alegrias a expor e em seu lugar aparece o aspecto mais inquieto de seu ser, tão próximo da perturbação.

Para concluir, estes breves poemas não aprisionam a autora em nada na condução de sua reflexão lírica sobre suas memórias e sobre as mil correntes de profunda tristeza ou do amor, mas tornam-se uma maravilha brilhante em que a existência é jogada.

3.

Pouco a pouco, o espaço diminui
na sombra

a casa apodrece de solidão
longe das árvores
os rios perfumados
os ecos da infância.

O calcário do corpo vai mirrando
no silêncio do branco

muros extasiados
de vazio

onde as moscas desenham
acrobacias de luto.










7.


 Quanto custa estrangular
o rosto   o riso   a raiva

o momento em que a confiança
de repente apodreceu
no declínio dos dias?

Lembras-te do tempo soberano
quando eram ávidas as palavras
as manobras da conquista?

Agora mutiladas
as sílabas não resistem à palidez
oca dos segredos.










8.


A espera enrola-se na vocação azul
e a manhã respira círculos
intensamente próximos

enquanto a morte se prepara
para desfazer caminhos

relatos de abandono.










11.


Abrimos as janelas da casa deserta
e entregamos ao sol
a consistência secreta das plantas
feroxmente
desfeitas pelo tempo.

Algures uma voz repete:

é muito triste viver assim
encostada à espera

como bichi resignado.



“A gracitação das sombras” de Maria Graciete Besse, no livro Na inclinação da luz, Editora Licorne, s.d.






                                           ] ------------------------------ o ------------------------------ [





4.


O que fica dos rostos é fuligem
a espessura do muito por viver
como abismo enganador

palavras mortiças
que repetem nas esquinas
o vazio
a incerteza dos laços

furtivos olhares
entre cinzas esbranqueçadas.

De repente, a memória
enche-se de rumores

e os rostos desenham
a incontrolável rotação
da estranheza.











5.


Os mortos espreitam
pelas frestas
do esquecimento

intermitentes
riem-se da nossa
miserável cobardia.












11.


Pela noite, apaga-se a chama
onde as algas se abraçam
ao hálito das medusas.

Entre os lábios da mulher
vai escorrendo um leite de figos

irremediável surdez.




“Entre dois sopros”, de Maria Graciete Besse, no livro Na inclinação da luz, Editora Licorne, s.d.

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