António Ramos Rosa [Faro 1924 – Lisboa 2013]

Créditos da imagem: Nuno Calvet

Nos versos de QUATRO POEMAS SOLIDÁRIOS de O centro na distância de António Ramos Rosa, a solidez da pedra distingue-se pela sua compacidade, que se recusa a ser penetrada. Seu mundo fechado é um convite para deixar nossa imaginação correr solta. Nós, de fato, somos o mineral que devemos trabalhar pacientemente para transformar a indiferença, a ignorância e a felicidade, na verdadeira pedra. El Che foi uma dessas pedras, fortalecida pela luta, cuja presença faz parte do nosso imaginário. Ele ainda é uma presença forte, porque a pedra está sempre aberta a uma nova vida e sua transformação. De facto, o herói argentino assumiu um novo significado para se transformar no símbolo da continuidade da nova história. De modo que se o poeta apresentar a matéria tosca da pedra para transformá-la em forma sutil através de um trabalho de humanização do dado, esta ação poderia se traduzir em termos de reconversão do cósmico humano em simbólico.

do livro Antonio Ramos Rosa, Obra poética I, «O centro da distância», “Assírio & Alvim, 2018.



A MINHA PEDRA PARA JOSÉ GOMES FERREIRA


Prólogo

Se houvesse uma pedra
a que eu pudesse chamar pedra

Se não houvesse o cansaço
das pedras
que não são pedras
que são apenas cansaço sem nenhuma pedra

Se tivesse ao menos uma pedra
que faria da pedra?

Farei o que puder
com a palavra pedra
quer tenha a pedra ou não

E se eu tivesse a pedra
sem o saber
se a pedra ou não
de qualquer modo
fosse essa pedra já
que há tanto tempo habita
a pedra que é desejo
da transparência viva?




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A pedra que eu habito



A pedra que eu habito
é um arco
um arco de pedra

Podes chamar-lhe buraco

No buraco
está o arco
do buraco

Queria mais que uma pedra
queria outra pedra

Invento uma pedra
para esta pedra

Invento uotro arco
e outro
e outro ainda

Não saio do buraco

Atiro uma pedra
para ser flecha

Mas será flecha?
E será de fogo?

Saio do buraco
vou ao teu encontro
com a minha pedra

É uma pedra mesmo?
Inventada ou não
inventada e não
é a minha pedra

e por isso dou-ta
com o calor da mão

O prodígio é simples
uma pedra apenas
um buraco
um insecto
de súbito foge

Agora é que é teu

Se te dou a pedra
logo a pedra existe

Logo a pedra é pedra

A pedra que encontrei
quando ta quis dar
quando te encontrei

Se uma pedra existe
todo o mundo existe

Se esta pedra é pedra
logo tu existes

Todo o mundo habita
no gesto da mão
que te dá a pedra

Toma então a pedra
meu irmão





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A FACE SUBMERSA DE CHE



Gastarem-se as promessas da sempre morte viva
Das sílabas do teu rosto novas palavras surgem

Sob as palavras as sílabas se reúnem
Outras palavras sob as palavras
nascem

A face submersa ressurge das raízes
Sempre ou nunca mais de cada vez e sempre

Um rastro se propaga rasga as superfícies

Um perfume sislvestre desempesta as cidades

As sílabas reúnem-se     Uma bondade antiga
retempera a revolta

Gastaram-se as promessas     A face submersa
ressurge das raízes

Outras palavras sob as palavras nascem.





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CATARINA PALAVRA VIVA



Catarina esta palavra vibra
vive
em nós
não é uma palavra morta
nem perdida

Catarina
é a palavra viva
que ninguém fuzila

Catarina o tei nome é mais que um nome
ou é nome
que encontrou
um rosto
a alegria viva
além de nós
aqui
presente

Catarina
não é bosque musical
mas uma pedra
que canta
de pé
claramente
pura
com um rosto
de água
sua palavra viva




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ATÉ ONDE VÓS ESTAIS



Ó presenças amigas, ó momento
em que alongo o braço e toco em cheio os rostos.

A minha língua abriu-se para dizer a face
do vento que percorre as vossas vidas.

Estou perante a noite mais profunda,
a delicada noite das raízes: vejo rostos
vejo os sinais e os suores das vossas vidas.

Atravesso árvores submersas, ruas obscuras,
poços de água verde, e vou convosco ter,
minhas faces lívidas, mãe, amigos, amores.

A terra que penetro é este chão de terra
com as raízes feridas, com os ferozes pulsos,
a vertente que desço é uma subida às vossas vidas.

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