MANUEL DE FREITAS [ Vale Santarém, 1972 ]

Créditos da imagem: fotografia de Inês Dias

Ninguém melhor do que Manuel Freitas conseguiu falar da tragédia metafísica sem fuga e da tortura de estar vivo numa sociedade onde o conformismo se confunde com a barbárie e o erro. Mesmo Portugal, lugar do fingimento pessoano, não escapa a sua escrita de “país devastado, / o símbolo envergonhadamente europeu … da austeridade, / do analfabetismo e da luz chegando a remotas, / quase míticas aldeias” (Cervejaria Leirão). Um emaranhado de fracassos e perdas atravessado pelos mortos e, mais ainda, pela morte. De certo modo, o poeta traça uma visão da ruina de nossa civilização ocidental na perspectiva histórica da poesia. Ei-nos num lugar paradoxal, onde a poesia diz o que as pessoas não percebem.

Spot




“A vida não pode ser assim
tão assustadora”,
diz a margarina becel
em horário nobre,
para não-cardíacos.
O que, na verdade, me
deixa saudades da censura,
de uma censura nova
que exterminasse imbecis
e deixasse a terra a quem
ela é, como deve ser, pesada.




do livro Game over, 2002.

do livro Terra Sem Coroa, 2007

Cervejaria Leirião





Por que regressa a infância?
Tenho neste momento trinta anos
e apenas gostava, como o outro,
de gostar de gostar fosse do que fosse.
Um poema, melhor ou pior, em nada
contribui para nada. Contudo,
não tinhamos a culpa.
Era para quase todos a primeira taberna,
o único refúgio possível para os intervalos
da segunda e da terceira classe
– com os bibes, brancos, tão sujos de barro e mijo.
Até as professoras, coitadas, lá bebiam
as suas mal servidas bicas, com uma eventual
sobretaxa devida ao estatuto de inovação.
Nós, mais receosos, comprávamos
berlindes, rebuçados mouros (nunca
mais os vi), coisas verdadeiramente
inúteis. Metia-nos medo, de tão feio e
gordo, o velho Leirião (já morreu),
em perfeito contraste com a esfíngica mulher
que se perdia nas sombras da cozinha,
preparando túbaros, moelas e petingas.
Depois, alegres, vóltavamos a esmo
para os pinhais do recreio, para um dia
quase igual aos outros – medido, como
então julgávamos, pela distraída eternidade
de cada gesto. Mas aconteciam coisas, claro.
O escândalo do João Luís (cigano, rebelde e bruto)
apanhado a fumar e a querer ser homem
– ou a fuga do Carlitos Pescador,
obedecendo à sinuosa voz do Tejo.
Nesse dia não tivemos aulas. Doutra vez,
foi o Tomané, herói inconfessado de nós todos,
que caiu enorme sobreiro, partindo
um braço e a memória de quem lá estava.
Éramos, mas eu não sabia, um país devastado,
o símbolo envergonhadamente europeu
(adjetivo, na altura, pouco usado) da austeridade,
do anafalbetismo e da luz chegando a remotas,
quase míticas aldeias. Por esses anos, o que tinha
por melhor amigo acusava os meus pais de votarem
no “partido dos ricos”, o mesmo cuja lista
tão mais gordo figurava, depois de perceber que isso
de ser rico é calamidade a que todos, afinal, aspiram.
Dos outros, afinal, não sei. Terão engordado,
escolhendo ou nem sequer escolhendo
maneiras corretas de garantir infelicidade.
Não seria hoje capaz de amar a Rosa, a Filomena,
os abafadores do Ramiro, o leite sem chocolate
com que a Senhora Emília nos preparava para os malefícios
da tabuada e para esse jogo, entre todos triste, chamado cabra-cega.
Não seria, hoje, capaz de amar. Por que regressaste, infância?




do livro, Beau Séjour, Assírio & Alvim, 2003.

MEIA – ORELHA




Alguém te chama
das profundezas do barranco,
frágil promessa de vida
a que terás de renunciar.

Sabes que nem a beleza
te comove, já só te
importa a ruína do teu nome,
os vinhos que salvam
de não haver salvação.

Lembra apenas o perdido corpo
de quem te chama.





do livro Poco allegretto, edição italiana  editada por Roberto Maggiani, Il ramo e la foglia edizioni, 2021.

Sofremos com nojo a pertença em nós
inculcada de uma geração, as suas taras
vindas de longe, modos diferentes
de ser igual. Com uma raiva triste,
vemo-los foder, procriar, indo aos poucos
definhando, esperados que são 
por pós-modernos jazigos.

Não há nada a fazer,
nenhuma palavra nos salva.
Somos sempre contemporâneos da merda.



do livro Poco allegretto, edição italiana  editada por Roberto Maggiani, Il ramo e la foglia edizioni, 2021.

COMPLEMENTO CIRCUNSTANCIAL DE RUĺNA

 
                                                  à memoria de Alcindo Monteiro



Hoje fomos aos fados, com a Fernanda Paula,
o Rui de Castro e alguns skinheads
de permeio. Pasolini não estava lá, mas
este mundo continua a ser – desculpem
o termo – uma boa merda. Espera-se a noite
mas não se espera mais nada, não se sabe
o que querer no meio de tanto vazio.
Entretanto, a poucos passos daqui,
um negro é primorosamente espancado
por ter nos tempos que correm a cor errada,
segundo os entendidos. Não era decerto a morte
o que ele esperava esta noite, nem amanhã
o lembraremos sequer – ao contrário de Pier Paolo,
naquela praia de Ostia que se enamorou
do seu sangue (há quem não arranje bilhete 
para o panteão da miséria).


Nós os vivos, os aparentemente vivos,
temos mais com que nos preocupar. As nossas mãos
rastejam como vermes numa generosa e alarve
travessa de bacalau, temperada pela voz
canalha do Rui de Castro. Nas paredes,
ofrece-se ao nosso olhar imbecil um vasto
campo de malmequeres
onde apetecia morrer.

Mas nós os vivos só gostamos de coisas sérias,
palpáveis, como cerveja a desoras, fado vadio
ou o sangue de uma bifana a deslizar-nos
pelos lábios (aquilo a que chamei malmequeres
não passa de túlipas tristes).

E chega de requiens e marchas fúnebres, epitáfios
e elegias. O estômago e a glande obrigam-nos
à vida, se a este festim de destroços
se pode com algum rigor chamar vida.
São outros fados, pesadelos de uma consciência
excessiva que ninguém convocou e que nos devasta
tão bem. Quase tão bem, afinal, como àquele corpo
quieto, repleto de baba e de sangue
sobre o asfalto húmido da noite.

Nós os vivos, os parentmente vivos,
somos de facto o único problema:
uma música pobre, um cancro sincero que sorri.



do livro Poco allegretto, edição italiana  editada por Roberto Maggiani, Il ramo e la foglia edizioni, 2021.

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