JUDITH TEIXEIRA [1880 – 1959]

Créditos da imagem: https://www.lalineadefuego.es

Nos livros de história da literatura portuguesa a presença desta poetisa é praticamente nula. Mulher e intelectual que, junto a Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, integra a vanguarda modernista portuguesa dos anos vinte do século passado. Mesmo assim, Judith Teixeira não deixa de ser um caso marginado das letras portuguesas.

Seu desafio era escolher o mistério do amor sáfico em versos de grande simbolismo e sensualidade nuna época de mudança dos paradigmas sociais impostos às mulheres. Para Judith o sexo não só indicava a dualidade do ser, mas sua bipolaridade e tensão interior. Para a sociedade portuguesa da época, a mulher era considerada como uma garantia para a reprodução dos valores morais e religiosos da sociedade. A aspiração social generalizada da maioria das mulheres era ser, como as das classes ricas, esposas e mães dentro da família, um modelo feminino que se estabeleceu na sociedade burguesa do século XIX e que tem segregado a mulher burguesa na casa mais do que seus antepassados não burgueses. Na base deste pensamento está o desempenho de deveres específicos, naturais e normais, que pertencem à mulher como mãe, educadora de filhos, esposa e colaboradora de seu marido. Só poderia causar um rebuliço se o seu interesse pela libido se voltasse para pessoas do sexo oposto e se tornasse ainda mais de domínio público. Na verdade, seus livros foram queimados em praça pública.

Resumindo, Judith Teixeira queria libertar-se dos laços masculinos que oprimiam as relações no que diz respeito à natureza e a cultura das mulheres. Teve que pagar por esse desafio com o silêncio da sociedade conservadora, o mundo da cultura e da crítica académica. Mais de 70 anos de invisibilidade. Embora nos últimos anos a atitude dominante esteja cada vez mais orientada para a tolerância, o que tem permitido redescobrir a figura desta poetisa, um exemplo único de lirismo plenamente realizado.

Ilusão


Vens todas as madrugadas
prender-te nos meus sonhos,
-estátua de Bizâncio
esculpida em neve!
E poisas tua mão
macia e leve
nas minhas pálpebras magoadas...

Vens toda nua, recortada em graça,
rebrilhante, iluminada!
Vejo-te chegar
como uma alvorada
de sol!...
e o meu corpo freme,
e a minha alma canta,
como um enamorado rouxinol!

Sobre a nudez moòa do teu corpo,
dois cisnes erectos
quedam-se cismando em brancas estesias,
e na seda roxa
do meu leito,
em rúbidos clarões,
nascem, maceradas,
as orquídeas vermelhas
das minhas sensações!...

É linda assim: toda nua,
no minuto doce
em que me trazes
a clara oferta do teu corpo
e reclamas firmemente
a minha posse!...

Quero prender-me à mentira loira
do teu grácil recorte...
E os teus beijos perfumados,
nenúfares desfolhados
pela rajada dominante e forte
das minhas crispações,
tombam sobre os meus nervos
partidos... estilaçados!

.................................
Acordo. E os teus braços,
muito ao longe,
desfiam ainda
a cabeleira fulva
do sol
por sobre os oiros adormecidos
da minha alcova...
Visão bendita! Repetida e noca!

Loira Salomé
de ritmos esculturais!
Vens mai nua
esta madrugada!
Vem esconder-te na sombra dos meus olhos
e não queiras deixar-me...

ai nunca, nunca mais!


Agosto
Madrugada



do livro de Judith Teixeira, Núa (1926), agora em Judith Teixeira. Obras completas, Edição de Martim de Gouveia e Sousa, 2019.

Um sorriso que passa



Saber de ti...
Mas para quê?
O que eu penso é o que vale!
E se não fores como eu te julgo
ou como eu te vi,
que a tua boca não falte!
-O que tu és não me interessa, crê.

Bendigo o teu sorriso,
que veio encher o meu olhar de luz!
mas para quê saber que és
ou que destino te conduz?!...

Nã aei a cor dos teus cabelos...
conheço a tua boca apenas quando ri...

Não voltes mais!

Que a visão do teu sorriso
-sorriso de curvas ideais,
virá dulcificar
a agonia dos poentes
destes meus dias sem remédio,
longos, incoerentes,
e desiguais!


Inverno



do livro de Judith Teixeira, Núa (1926), agora em Judith Teixeira. Obras completas, Edição de Martim de Gouveia e Sousa, 2019.

Outonais


No meu peito alvo, deneve,
as claras pétalas dos teus dedos,
finas e alongadas,
tombaram como rosas desfolhadas
à luz espásmica e fria
deste entardecer...
E omeu corpo sofre,
ébrio de luxúria, um mórbido prazer!

A cor viva dos teus beijos,
meu amor,
prolonga ainda mais o meu tormento,
na trágica dor
deste desvestir loiro e desolado
do outono...
Repara agora, como o sol morre
num agónico sorrir
doloroso e lento!...
...................................
Noite... um abismo...
sombras de medo!
Tumultuam mais alto os teus desejos!
Sobe o clamor do meu delírio
e a brasa viva dos teus beijos,
num rúbido segredo,
vai-me abrindo a carne em sulcos de martírio!


Entardecer - Janeiro



do livro de Judith Teixeira, Núa (1926), agora em Judith Teixeira. Obras completas, Edição de Martim de Gouveia e Sousa, 2019.

Mais beijos




Devagar...
outro beijo... outro ainda...
O teu olhar, misterioso e lento,
veio desgrenhar
a cálida tempestade
que me desvaira o pensamento!

Mais beijos!...
Deixa que eu, endoidecida,
incendeie a tua boca
e domine a tua vida!

Sim, amor...
deixa que se alongue mais
este momento breve!...
- que o meu desejo subindo
solte a rubra asa
e nos leve!


Maio



do livro de Judith Teixeira, Núa (1926), agora em Judith Teixeira. Obras completas, Edição de Martim de Gouveia e Sousa, 2019.

O outro



Vão para ti, amor de algum dia,
os gritos rubros da minha alma em sangue;
vives em mim, cores-me nas veias,
andas a vibrar
na minha carne exangue!

Mas, quando nos teus olhos poisa o meu olhar
enoitado e triste,
vejo-te diferente...
Aquele que tu eras, e que eu amo ainda,
perdeu-se de ti
...e só em mim existe!


Agosto


do livro de Judith Teixeira, Núa (1926), agora em Judith Teixeira. Obras completas, Edição de Martim de Gouveia e Sousa, 2019.

One Reply to “JUDITH TEIXEIRA [1880 – 1959]”

Rispondi

Inserisci i tuoi dati qui sotto o clicca su un'icona per effettuare l'accesso:

Logo di WordPress.com

Stai commentando usando il tuo account WordPress.com. Chiudi sessione /  Modifica )

Google photo

Stai commentando usando il tuo account Google. Chiudi sessione /  Modifica )

Foto Twitter

Stai commentando usando il tuo account Twitter. Chiudi sessione /  Modifica )

Foto di Facebook

Stai commentando usando il tuo account Facebook. Chiudi sessione /  Modifica )

Connessione a %s...

Crea il tuo sito web con WordPress.com
Crea il tuo sito
%d blogger hanno fatto clic su Mi Piace per questo: